A embalagem de papelcartão, por suas inúmeras possibilidades de apresentação, seja na forma, no layout, nos recursos de impressão, conquista espaços num mercado de produtos em busca de crescente diferenciação. A Ibema – Companhia Brasileira de Papel elegeu o segmento de papelcartão sua principal atividade industrial, e aquela em que deverá concentrar seus futuros investimentos, cerca de R$ 35 milhões, distribuídos por toda a cadeia, no aumento da capacidade, em processos, florestas, energia e logística.
A origem da Ibema carrega muito do pioneirismo e do empreendedorismo dos fundadores da empresa, que, contrariando uma lógica de mercado, instalaram-se em uma região de difícil acesso, e tiveram uma visão de futuro quando decidiram entrar na área florestal, e utilizar os recursos hídricos como fonte de geração de energia. “Foi ali que tudo nasceu e, ao longo destes 53 anos, tornou-se o empreendimento das atuais dimensões, que contribuiu para trazer soberania à região”, comentou Rui Gerson Brandt, diretor presidente da Ibema, em entrevista à revista embanews. A empresa é controlada por três famílias, através da holding Ibema Participações, e tem 22% de participação do BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico. Atualmente, a Ibema passa por um processo de implantação dos conceitos de governança corporativa, com vistas à futura abertura do capital da empresa, projetada para 2011/2012.
Com duas unidades industriais no Paraná: em Turvo e Ibema, e escritório em Curitiba, a empresa possui uma capacidade instalada para produzir 108.000 toneladas/ano de papelcartão, o que a posiciona como a 3ª maior produtora do Brasil, sendo totalmente integrada.
A formação de Rui Gerson Brandt na área financeira e sua experiência como diretor de um banco de fomentos contribuíram para o seu conhecimento na área de projetos, investimentos e indústria. Somado a isso, foi diretor do Sebrae Paraná por cinco anos, período em que adquiriu expertise sobre a pequena e média empresa. Já foi professor universitário, uma experiência fantástica, segundo ele nos conta; passou por uma autarquia federal, a Petrobrás, e ocupou cargo de confiança no governo estadual.
Todo o arcabouço de conhecimentos e relações acabou tornando-se de grande valia quando o executivo ingressou na Ibema, uma empresa familiar privada, já na fase da profissionalização, onde está há 20 anos. Formado em Ciências Contábeis e Administração de Empresas, Brandt voltou aos bancos escolares mais uma vez, formando-se em Direito em 2003. É também presidente do Sinpacel – Sindicato das Indústrias de Papel, Celulose e Pasta de Madeira para Papel, Papelão e de Artefatos de Papel e Papelão do Estado do Paraná.
Embanews: Pode nos contar como tudo começou?
Rui Gerson Brandt: A Ibema iniciou sua trajetória na década de 50 como uma madeireira e através da identificação de oportunidades, entrou para a área florestal, com o plantio de árvores. Num segundo momento, o resíduo da madeira não aproveitada passou a ser utilizado na produção de pasta mecânica, matéria prima para a produção de papel. Daí para iniciar-se na produção de papel de fato foi um pulo. Ela começou com a produção de papelão Paraná, muito utilizado em caixas de sapato. Nesse processo evolutivo, o papelcartão tornou-se o próximo alvo do negócio, em 1971, no qual focou sua atuação.
A empresa tem origem na história de três famílias que, na região que corresponde ao atual município de Ibema, mantinham diversos negócios agropecuários em seu início.
Em 1991, houve um processo de cisão, período de tensão financeira para a empresa, quando houve a opção pelos negócios de florestas e papel e também por uma profissionalização da administração. Daquele momento em diante, a Ibema tornou-se uma empresa profissionalizada, voltada para a produção de papel e atividade florestal. Nesse período, houve um movimento da empresa para crescer através de aquisições, o que não se concretizou, e fez com que se concentrasse em um projeto de crescimento por vias próprias. Em 2001, implantamos a máquina 3, de última geração, na fábrica de Turvo, região de Guarapuava (PR), que é motivo de muito orgulho e permitiu que alcançássemos nossa atual posição. Depois de um período de consolidação do investimento, em 2006 e 2007, a empresa passou por um processo de mudança cultural, num caminho voltado para a qualidade e para a aproximação da empresa com o cliente. Iniciamos um programa de qualidade e de certificação pela ISO 9000, culminando este ano com a certificação FSC (Forest Stewardship Council). O aporte do BNDES em 2007 e o direcionamento para tornar-se futuramente uma empresa de capital aberto também são fatores que nos impulsionam fortemente nesse trabalho de consolidação da marca.
Embanews: Como o senhor vê as condições do mercado brasileiro de papel e celulose hoje e o grau de competitividade do setor no plano internacional?
Rui Gerson Brandt: O Brasil se caracteriza como o maior fabricante de celulose de fibra curta e é um país exportador de celulose. Mas na condição de produtor de papel, a posição brasileira é bem diferente, seja no mercado interno, devido ao consumo per capita de papel ser ainda muito baixo, ou na exportação, a ponto de ser ameaçado pela China, com produtos fabricados com celulose brasileira. Outra questão é que hoje os preços estão num patamar aquém do que as empresas precisam para uma geração de caixa suficiente para a realização de investimentos. De qualquer maneira, a atividade industrial no setor de papel cresceu, traduzindo neste momento a recuperação econômica, e no caso do papelcartão, houve melhora significativa. Na Ibema, praticamente recuperamos todas as perdas do primeiro semestre, que foram 7,9% abaixo em relação do mesmo período do ano anterior, e deveremos fechar 2009 com números semelhantes aos do ano passado.
Embanews: Quais são as projeções para 2010?
Rui Gerson Brandt: Para 2010, projetamos um crescimento de 5%, o mesmo crescimento estimado para o PIB. No Brasil, há ainda uma grande parcela da população fora do mercado de consumo, que está em processo de inclusão, ampliando o potencial de crescimento do mercado. Quando se penaliza a empresa ou o produto brasileiro com uma carga tributária excessiva, inibe-se esse crescimento. Já as exportações estão sendo sacrificadas pela questão cambial e pela própria situação econômica mundial. Para a Ibema, as exportações representam 20% da produção, principalmente para a Argentina e os demais países do Mercosul, com 80% de participação. Os 20% restantes vão para a Europa, para países como Portugal e Espanha.
Embanews: Quais são os principais desafios para se exportar no Brasil?
Rui Gerson Brandt: Temos um problema sério de infraestrutura e, somado a isso, a falta de uma definição de políticas. Não é possível que o país seja competitivo internacionalmente se não se criarem as condições para que o país exporte. O grande esforço que hoje se faz, na verdade, caracteriza-se por um esforço individual, e não do país. Além disso, o Brasil não tem o perfil de um país exportador, assim como também expõe sua fragilidade quando concorre com o produto importado, pois não há regras que permitam à empresa brasileira manter sua competitividade.
Embanews: Poderia nos comentar sobre o trabalho da Ibema no campo da responsabilidade social?
Rui Gerson Brandt: Voltando ao início da história da empresa, a cidade hoje chamada Ibema, a 50 km de Cascavel (PR), que foi construída ao lado de suas instalações voltadas originalmente para a atividade madeireira, pecuária e agrícola, surgiu de um projeto de colonização. Quando a empresa deixou a atividade madeireira, instalou uma máquina de papel para gerar no mínimo 100 empregos para as pessoas que ficariam desempregadas. Acredito que este seja um capítulo na história da empresa significativo do nível de seu comprometimento social. Assim também, o município de Turvo, que era um distrito de Guarapuava, surgiu em função da atividade industrial. Até recentemente, a empresa era a responsável pela educação e saúde da população do município. E atualmente, dos seus 15 mil habitantes, dos quais 10 mil vivem na área rural, onde se localiza a fábrica, 4 mil dependem direta ou indiretamente da fábrica. Cerca de 65% da arrecadação do município depende da Ibema.
Embanews: E em relação à sustentabilidade ambiental?
Rui Gerson Brandt: Em Turvo, temos duas PCHs, hidroelétricas que geram 10,8 MW de energia, através do aproveitamento do fio d’água dos rios locais, sem área de alagamento, e estão integradas à fábrica de papelcartão. É na região de Turvo que também se localiza a reserva florestal da empresa, com 8.500 hectares de florestas, dos quais 4.500 plantados, com pinus e eucalipto. A conquista da certificação FSC para papelcartão e papéis especiais, produzidos nas unidades de Turvo e Ibema, vem como decorrência do trabalho realizado pela empresa com foco na qualidade e sustentabilidade e nos dá a oportunidade de estender essa cultura a toda a nossa cadeia, do gráfico, ao cliente e consumidor final.
Embanews: Já é possível falar em novos investimentos?
Rui Gerson Brandt: Se não fosse a crise há um ano, o nosso projeto de investimento, que estava calcado em uma expectativa de crescimento estimada em 20%, estaria em curso; no entanto, tivemos que engavetá-lo. Porém, com a retomada, estamos reavaliando os investimentos futuros. Nossos investimentos não são apenas para a máquina de papel, é preciso investir em florestas, energia, logística, temos que movimentar toda uma cadeia. No total, o investimento programado é de R$ 35 milhões.
Embanews: Como cidadão e empresário, como vê o futuro do Brasil e seus desafios?
Rui Gerson Brandt: O Brasil é um país muito viável, porém, um dos maiores desafios é a carência de verdadeiras lideranças capazes de conduzir o cidadão brasileiro ao lugar que ele deve ocupar. Há raras pessoas que têm um projeto voltado para o Brasil; há projetos para a conquista e manutenção do poder. Com isso, o Brasil pode estar perdendo uma grande oportunidade de crescer de fato e ser um país para os brasileiros, e não apenas para poucos. Aplaude-se a continuidade, mas não se critica o que não foi feito para resolver os problemas brasileiros, principalmente na área da educação, saúde, habitação, segurança. Um país que não estabelece a educação como prioridade verdadeira, não está olhando para o seu futuro. Aumentar a carga tributária de 23% para 40%, sem realizar o que efetivamente interessa ao Brasil é tirar oportunidades. Mudar isso é um grande desafio.