Da tradicional garrafa de palha de carnaúba trançada, marca registrada da famosa cachaça Ypióca, às bebidas à base de frutas, em embalagens de linhas modernas, o grupo Ypióca cresceu e se consolidou em mais de 160 anos de história e cinco gerações de uma família empreendedora. O grupo que começou com a chegada de Dário Telles de Menezes ao Brasil, em 1846, oriundo de Portugal, hoje é comandado por Everardo Telles, à frente de um conglomerado de negócios com sede em Fortaleza (CE), que inclui, além da produção de aguardente e água mineral, negócios na área de embalagem plástica e de papelão, produção de ração, criação de tilápia, agropecuária, entre outros.
Aline Telles Chaves, que conversou com a revista embanews, é diretora de marketing do grupo e pertence à quinta geração da família.
Da cana-de-açúcar, principal matéria-prima da produção de cachaça, tudo é reaproveitado. A empresa realizou pesquisas que permitem hoje o uso de bagaço de cana na geração de energia, na produção de papel, ração e fertilizante.
Entre os projetos anunciados para 2009 está a inauguração de uma nova fábrica de produção de álcool combustível e aguardente a ser inaugurada no segundo semestre.
A produção de embalagens plásticas e de papelão ondulado, a princípio criada para suprir as próprias necessidades do grupo, hoje atende empresas das regiões Norte e Nordeste, sendo a única fabricante de garrafões de 20 litros em PET na região Nordeste. Também está ampliando a produção de caixas de papelão de 1,2 mil toneladas para 1,8 mil toneladas por mês.
Embanews: Pode nos dar alguns exemplos de como os conceitos tradição e inovação se encaixam no dia-a-dia da Ypióca?
Aline Telles Chaves: Acredito que a nossa história é uma história de tradição, com 5 gerações à frente dos negócios, e uma marca que tem atravessado gerações, conquistando um posicionamento singular no mercado. A Ypióca é uma marca de aguardente que está presente no mercado brasileiro há 160 anos. Dário Telles de Menezes, meu tataravô, chegou ao Brasil em 1846, trazendo em sua bagagem um alambique de cerâmica e a experiência pessoal dele na fabricação de destilados. De lá para cá, foram muitas as inovações que fizemos ao longo da nossa história.
A segunda geração da minha família, que esteve à frente da Ypióca entre 1895 e 1924, foi presidida por Dário Borges (filho de Dário Telles) e introduziu o engenho de ferro fundido no processo de fabricação da aguardente. Nesta época, a produção ainda era inteiramente artesanal. Já a terceira geração, iniciada em 1929, foi presidida por Paulo Campos Telles, que implantou o processo de envelhecimento na produção da cachaça. Isso foi feito a partir da aquisição e fabricação própria de tonéis de bálsamo e freijó, que permitiam o envelhecimento de aguardente por mais de dois anos. Além disso, inspirado nas bebidas premium, como o uísque, meu avô introduziu o engarrafamento em litros com conta-gotas e exportou o primeiro litro de aguardente para o mundo, em 1968.
Desde 1970, a quarta e atual geração, presidida por Everardo Telles, meu pai, consolidou a Ypióca como um grupo de atuação nacional que produz aguardente envelhecida em larga escala, controla todas as etapas de produção - da plantação da cana-de-açúcar até a distribuição para os pontos de venda - e ampliou as frentes de negócios da empresa. Atualmente, o grupo é o maior produtor de aguardente do país, com capacidade instalada de produção de 80 milhões/ano e atua em todo território nacional com filiais em diversos estados. Como marca, a Ypióca se destaca pelo pioneirismo no lançamento de diversos produtos.
Embanews: O grupo partiu para a diversificação de atividades, inclusive na área de embalagem. Quais são atualmente as principais áreas de negócios?
Aline Telles Chaves: Na quarta geração, a Ypióca expandiu e diversificou seus negócios, e além da fabricação de aguardente, passou a atuar no ramo de água mineral com a marca Naturágua, na fabricação de embalagens plásticas em PET e PVC, com a marca Yplastic; e de papel, papelão e caixas de papelão, com a marca Pecém, além de uma fábrica de rações e produção de alevinos e piscicultura de tilápias. Além dos contínuos lançamentos da empresa, também podemos citar a abertura de novas frentes de negócios, tais como o Museu da Cachaça e uma Cachaçaria em shopping.
Embanews: A Ypióca também se destaca em relação à inovação de sua linha de produtos...
Aline Telles Chaves: A Ypióca lançou diversos produtos com pioneirismo. Podemos citar a Ypióca Orgânica, a primeira aguardente certificada pelo IBD - Associação de Certificação Instituto Biodinâmico, no Brasil, e internacionalmente, pelo IFOAM - The International Federation of Organic Agriculture Movements. A Ypióca Red Fruits, primeira aguardente saborizada com teor alcóolico suave e sabor frutas vermelhas voltada para o público feminino, é outro exemplo. Essa embalagem sofreu mudanças com o uso do rótulo termoencolhível. Destaco também a Ypióca 160, primeira aguardente com malte importado voltada para os consumidores de classe AB, masculinos, que teve uma embalagem bastante premiada. Na década de 90, lançamos uma linha de Caipirinhas com três sabores (maracujá, limão e tangerina) em embalagens PET e na década de 80, o Acayú, uma aguardente de caju.
Embanews: Como avalia o atual mercado de cachaça no Brasil?
Aline Telles Chaves: Avaliamos como um mercado crescente que se especializa cada vez mais na aguardente premium e que se diversifica, a exemplo da Ypióca, com a criação de novos sabores a fim de atingir os diversos públicos que estão surgindo no consumo dessa bebida. Embora haja um crescente controle e implantação de políticas com vistas à restrição do consumo de bebidas alcoólicas entendemos que isso não se torna preocupante na medida em que são medidas universais e que visam a segurança da população.
Embanews: Exportar cachaça - a percepção do estrangeiro sobre a cachaça brasileira mudou? Em que aspectos?
Aline Telles Chaves: Não. A percepção foi apenas ampliada. Desde a primeira exportação de aguardente no Brasil (efetuada pela Ypióca em 1968 para a Alemanha) até os dias de hoje, a cachaça é vista como um produto de excelente qualidade e valorizado no mercado internacional. Atualmente estamos presentes em mais de 50 países, distribuídos por todos os continentes e percebemos que o conceito de um destilado único, puro e característico do Brasil, permanece.
Estamos presentes há vários anos nas principais feiras do setor (Anuga na Alemanha, Sial na França, Foodex no Japão, Sial China em Xangai) e nossa percepção é que, cada vez mais as pessoas procuram a caipirinha e com isso aumenta o interesse pela aguardente.
Embanews: A Ypióca tem expandido suas exportações? Para quais países?
Aline Telles Chaves: Após nossa entrada no mercado alemão no final da década de 60, exportamos para os Estados Unidos em 1971 (Califórnia) sendo pioneiros também nesse país. Nossas exportações vêm crescendo em países asiáticos, como a Malásia e a China; africanos, como Angola e Moçambique, e europeus, como Romênia e Finlândia.
Atualmente somos líderes nas exportações brasileiras em vários mercados tais como Suécia, Grécia, Hungria, República Tcheca, Dinamarca, Panamá, sendo nossos principais mercados a Espanha, EUA, Portugal e França.
Embanews: Quais são as maiores dificuldades para se exportar hoje?
Aline Telles Chaves: Apenas a burocracia ainda existente. Há pouca oferta de navios para os diversos destinos que hoje atingimos. Após tantos anos, já nos adaptamos à variação cambial e sempre planejamos em longo prazo todas as nossas ações internacionais.
Embanews: A Ypióca conseguiu transformar sua principal atividade num processo sustentável. Pode nos contar sobre essa conquista?
Aline Telles Chaves: A produção da aguardente começa na moagem da cana-de-açúcar, que produz uma quantidade muito grande de bagaço. Até pouco tempo atrás, esta sobra era tida como resíduo sólido. Aos poucos pesquisamos e desenvolvemos técnicas que hoje nos permitem 100% do seu aproveitamento. O bagaço da cana-de-açúcar é dividido em quatro partes, das quais a primeira alimenta as caldeiras que geram energia para a fábrica de moagem; a segunda é destinada à fabricação de papel e papelão utilizado na confecção das embalagens que protegem os produtos Ypióca durante o transporte; a terceira é tratada e utilizada na fabricação de rações; e a quarta é direcionada para elaboração da compostagem - um tipo de fertilizante usada na adubação das nossas plantações de cana-de-açúcar.
Também temos outras ações. Em 1995, a Ypióca criou a Reserva Ecológica do Encantado, a primeira reserva ecológica particular do Estado de Ceará, localizada em Aquiraz (CE). Este ano, inauguramos a Floresta do Curió, o último resquício de Mata Atlântica na região metropolitana de Fortaleza. O grupo Ypióca, em suas sete empresas, gera mais de 20 mil empregos diretos e indiretos, dos quais 5 mil artesãs são contratadas todos os anos para trançarem a mão a embalagem de palha que envolve a Ypióca Empalhada Ouro e a Prata.
Em 1941, a Ypióca inaugurou a Vila Eugênia, que abriga seus funcionários até hoje. Sete anos depois, criamos o Instituto dos Pobres de Maranguape, que tem programas de alfabetização para adultos, contribui com assistência médico-odontológica para os funcionários e seus familiares e auxilia entidades de idosos e crianças. Além disso, desde a sua criação, em 2000, o Museu da Cachaça destina parte de sua renda com ingressos para a Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza, um dos maiores hospitais da capital, que atende à população de baixa renda.
Embanews: Como avalia o negócio de produção de embalagens da empresa?
Aline Telles Chaves: No início, a produção própria de embalagens foi apenas uma forma de atender à nossa crescente demanda interna, em virtude do crescimento de vendas. E hoje, é um negócio excelente, pois apenas o excedente do que é utilizado por nós é comercializado.
Atualmente a Yplastic, empresa fabricante de embalagens PET do Grupo Ypióca, é responsável pela fabricação de 100% das embalagens plásticas que utilizamos nos produtos fabricados pelas empresas do grupo. A venda voltada para terceiros representa 30% da produção. Atendemos o Norte e o Nordeste com nossas embalagens plásticas e caixas de papelão.
www.ypioca.com.br